40 anos de HIV: doença que já matou 350 mil brasileiros avança entre jovens e vulneráveis

Notícias e Comentários do Locutor de Rádio

Quarenta anos depois do primeiro caso confirmado de Aids, o número significativo de pessoas com HIV entre populações vulneráveis e jovens é o principal entrave, dizem especialistas, para o Brasil cumprir duas metas definidas pela ONU para derrotar de vez a pandemia. Uma delas é a eliminação, até 2030, de casos da doença que já matou, de acordo com o Ministério da Saúde, 349.784 brasileiros até 2019. A outra, definida no começo do mês, é a de que cinco anos antes, ou seja, em 2025, 95% da população esteja ciente de seu status sorológico, sob tratamento antirretroviral, e com a carga viral zerada. O desafio não é pequeno.

Medicamentos e terapias são utilizados com sucesso antes ou depois do contato da pessoa com o vírus. Não há, no entanto, vacinas, como as desenvolvidas contra a Covid-19. O Brasil oferece de forma gratuita os medicamentos que combatem o vírus, mas as principais dificuldades, apontam especialistas, são a falta de diagnóstico e de adesão de parcela significativa de infectados ao tratamento.

De acordo com a Saúde, no fim de 2019 cerca de 920 mil pessoas viviam com o HIV no país, das quais 821 mil diagnosticadas. Ou seja, pelo menos 11% têm o vírus sem saber. E como cerca de 700 mil estão se tratando regularmente, mais de 100 mil pessoas sabem que são portadoras, mas não fazem o tratamento.

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), criado em 1996, informa que, desde 2010, o número de pessoas em tratamento no mundo mais do que triplicou, chegando a 27,4 milhões em 2020. Com a terapia antirretroviral, as mortes por Aids – mais de 34,7 milhões até hoje – caíram 43% nesse mesmo período. Também houve progresso na redução das infecções, de cerca de 30%.

Em 2020, estimava-se em 37,6 milhões o número de pessoas com HIV no mundo e 74% delas tinham acesso à terapia retroviral. No entanto, 16% das pessoas com HIV em todo o planeta não sabem que têm o vírus.

O Brasil foi reconhecido pela Unaids como referência mundial no controle e prevenção do HIV/Aids, justamente por oferecer acesso universal ao tratamento, ter ampliado o acesso à testagem rápida e instituído a distribuição gratuita de preservativos em unidades de saúde.

Mas um dos maiores especialistas do tema no país, o infectologista Caio Rosenthal, está preocupado com o que classifica como retrocesso: “Pecamos sobretudo ao não investir mais em campanhas de prevenção e na busca direta de pessoas soropositivas. O país parou no tempo e o vírus pode estar silenciosamente se espalhando”.

Epidemia concentrada

Os dados da Unaids também revelam uma epidemia que segue concentrada em grupos mais específicos no Brasil. Entre os heterossexuais, por exemplo, a prevalência de HIV hoje é de entre 0,4% e 0,6%. Já os gays, que correspondem, segundo o programa da ONU, a cerca de 5% dos brasileiros, a prevalência chega a 18%. E entre travestis e transexuais, a prevalência ultrapassa 30%.

Os mais jovens também preocupam: cerca de metade dos novos casos de pessoas com HIV no país estão na faixa dos 15 aos 24 anos, especialmente homens. Estudo finalizado em abril pela pesquisadora Celia Landman, da Fiocruz, mostra que entre homens jovens (15-24 anos) a incidência dobrou em uma década e meia, de 6.400 pessoas em 2000 para 12.800 em 2015.

“Temos que estimular os jovens a fazer diagnóstico constante e usar as novas técnicas de prevenção combinada. Os que estão começando a vida sexual precisam de educação e atendimento em saúde”, afirma Landman.

Depois dos remédios para diminuir a mortalidade, houve uma revolução na prevenção, com os chamados PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ou PEP (Profilaxia Pós-Exposição), terapias antirretrovirais indicadas para antes ou depois de se ter contato com o HIV (mas que não atuam sobre outras doenças e infecções sexualmente transmissíveis).

O sociólogo Alexandre Grangeiro, professor do Departamento de Medicina Preventiva da USP e ex-diretor do Programa Nacional de DST/AIDS, destaca que nunca foi possível utilizar tantas opções terapêuticas e de prevenção, mas mesmo assim as pessoas seguem se infectando e morrendo. Embora os medicamentos estejam disponíveis no SUS, uma parcela da população começa a se tratar tardiamente ou não se beneficia deles, ou porque não sabe ser portadora do vírus ou porque não consegue aderir ao tratamento.

“No Brasil, a falta de ações em escolas e o aumento do conservadorismo têm acentuado essa tendência”, afirma Grangeiro.  “Os jovens vivem uma nova revolução sexual, experimentando novos tipos de relacionamentos, identidades de gênero, números de parceiros. O uso dos retrovirais pode ajudar, mas há uma defasagem na informação. Estamos criando gerações analfabetas em lidar com HIV.”

É equivocado, no entanto, pensar que alguém está imune ao HIV. O advogado Erick Santos, 34 anos, recebeu o resultado positivo para o vírus quando fez o teste em um exame periódico feito por motivos profissionais.

“Fiquei atordoado. Pensei num milhão de coisas, que ia ficar magro, doente, fragilizado, com efeitos colaterais dos remédios. Depois pesquisei e entendi que o tratamento hoje é diferente e que poderia ter vida normal”, conta.

Mas o estigma, diz, segue. “Há o julgamento de que você é irresponsável, é promiscuo. E também um olhar sobre sua sexualidade, presumindo que você é homossexual. Eu, por exemplo, não sou”, afirma Santos, que revelou sua história em uma rede social para incentivar que as pessoas se testem.  “A repercussão foi muito positiva, recebi umas 300 mensagens. Muita gente me contou que nunca tinha feito o teste. Inclusive, três testaram após meu post e descobriram que também tinham HIV.”

Gerson Pereira, diretor do Departamento Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DCCI) do Ministério da Saúde, vê cenário mais positivo. “A meta da ONU é alcançável. Os casos e mortes de Aids têm diminuído”, diz Pereira, que defende a ação da pasta no combate à Aids/HIV: “Temos uma epidemia concentrada e a campanha é feita em nichos, nos sites de relacionamento, WhatsApp e redes sociais”.

*Osul

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