A 100 anos atrás registrava-se o inverno mais gelado do Rio Grande do Sul

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Leia, abaixo, a sequência da matéria:

Porto Alegre começava a ganhar ares de cidade grande em 1918. Milhares de gaúchos morriam naquele inverno devido à Gripe Espanhola, que, segundo a ciência, foi favorecida pelo período muito frio no planeta. Em ano de Gripe Espanhola, o que menos se desejava era inverno rigoroso.

Depois do gelo da grande onda de frio do fim de junho, na segunda semana de julho, massa de ar polar com intensidade raramente vista nos últimos 200 anos chegou ao Rio Grande do Sul. A onda teve início sábado, dia 6. Os relatos publicados pelo Correio do Povo davam conta que chovia muito em Caxias do Sul sábado à tarde, quando de repente a chuva virou neve forte às 17h. Na sequência, a neve deu lugar a dias de sol, mas congelantes, o que fez com que a neve não derretesse por até quatro dias, tal como noticiado no Correio.

Às 7h45m de 11 de julho de 1918, Porto Alegre registraria seu recorde de frio, com mínima de 4 graus negativos, marca jamais batida nos cem anos seguintes e jamais observada nos escassos e descontinuados dados do século XIX. Quatro fatores determinaram a mínima na análise da MetSul: a poderosíssima massa de ar polar, o frio da véspera com extremas entre -1,0ºC e 9,6ºC, o ar muito seco, que garantiu máxima de 13,2ºC na tarde do dia 11, e o céu limpo com vento calmo. O frio provocou mortes em Porto Alegre e no Interior. No dia 11, as mínimas foram de -9ºC, em Vacaria; -7,6ºC, em Guaporé; -6,9ºC, em Caxias do Sul; -4,1ºC, em Alegrete e -3ºC, em Piratini. Dois dias antes, Buenos Aires registrara o seu recorde histórico de frio, que segue até hoje, com -5,4ºC.

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A geada foi muito severa, conforme os jornais da época, com registro de congelamento até em locais que hoje raramente testemunham o fenômeno, como em Torres. “São gerais neste município os lamentos dos agricultores em consequência da geada que prejudicou os canaviais, até aqueles situados nos altos dos morros, que antes nunca haviam sido prejudicados. Os bananais foram destruídos. Os arroios, açudes e rios de pouco curso gelaram, apresentando uma camada de quatro centímetros de gelo”, diziam os relatos de Torres. Da Serra, assinantes enviaram para a sede do jornal bloco de gelo de 300 quilos retirado de um pequeno lago em Caxias do Sul, que “foi apreciado pelas inúmeras pessoas que acorreram à frente do edifício do Correio do Povo”. Carta enviada por um leitor e colaborador noticiou que foi preciso levar ao fogo a tinta da caneta que havia congelado pelo frio de -9ºC. Se hoje reclamamos do frio, nossos antepassados enfrentaram rigor ainda maior e sem os recursos de aquecimento atuais.

A neve em Caxias – 1918

“A nevada alvoroçou a população, principalmente a petizada, que até às 21 horas, quando cessou a neve de cair, esteve na rua entretendo-se em atirar uns nos outros bolas feitas de flocos de neve. Domingo pela manhã, a população extasiou-se ante o magnífico panorama. Tudo era branco: os telhados, as ruas, as árvores. E a neve, à luz do sol, despedia cintilações magníficas. Os fotógrafos munidos de suas Kodaks corriam em todos os sentidos apanhando fotografias de lugares mais apropriados e onde a neve era mais espessa. À tarde, grupo de cavalheiros e senhoritas da sociedade caxiense organizaram na Praça Dante Aligheri guerrilhas cujos projéteis improvisavam com bolas de neve”. (Correio do Povo de 11 de julho de 1918)

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