Greve dos caminhoneiros: a semana em que o governo Temer foi à lona

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Encurralado após quatro dias de greve e com o país à beira do colapso, o governo convocou na quinta-feira (24) reunião de emergência. Em torno de uma mesa no quarto andar do Palácio do Planalto, os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Carlos Marun (Secretaria de Governo), Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional) e Valter Casimiro (Transportes) tentavam convencer os líderes dos caminhoneiros a desbloquear estradas e normalizar o transporte de cargas Brasil afora. Foi quando um senhor de 76 anos, bigode de morsa e mais de quatro décadas de experiência em movimentos grevistas irrompeu em fúria.

Aos gritos e em pé, diante dos principais interlocutores do presidente Michel Temer, o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, exigiu garantias de cumprimento das promessas, disse que o governo não era confiável, virou as costas e foi-se embora, batendo a porta. No saguão do Palácio do Planalto, ainda colérico, alertou os jornalistas:
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— Todo mundo lá em cima vai aceitar a trégua. Mas quem está na rua não. A greve vai continuar.

Fonseca foi profético. Por volta das 21h, o governo anunciou acordo para encerrar os protestos. Mas, no alvorecer desta sexta-feira (25), milhares de caminhões continuavam parados nas estradas.

Portos e aeroportos suspendiam operações, escolas, universidades e prefeituras paralisaram as atividades. Era o quinto dia de protestos, e o país entrava em inércia.

A escassez de combustível complicou o deslocamento em quase todas as cidades do país. Em São Paulo, faltou gasolina até para os veículos do serviço funerário. Dois anos após a posse de Temer e a sete meses do final de seu mandato, a greve dos caminhoneiros soa como epitáfio para a gestão do emedebista.

— É um governo frágil, com uma equipe fraca e que, perto do fim, perdeu o respeito do cidadão. O presidente Temer é a personificação da insatisfação do povo com a classe política. Muitos de nós também gostaríamos de levantar, virar as costas e bater a porta — diz a cientista política Rita de Cássia Biason.

Alçado ao poder por uma onda de insatisfação popular que culminou no impeachment de Dilma Rousseff, Temer assumiu prometendo “um governo de salvação nacional”. Com habilidade política, construiu uma maioria expressiva na Câmara e no Senado e agradou o mercado com Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda e Pedro Parente no comando da Petrobras. A aprovação do teto dos gastos públicos, em outubro de 2016, foi saudada como avanço na forma de gerir a máquina pública.

Na mesma época, anunciou a independência da Petrobras como blindagem a indicações partidárias que haviam rapinado a estatal. A mudança na política de preços dos combustíveis, a partir da variação do dólar e do valor do barril de petróleo no mercado internacional, foi elogiada como instrumento eficaz para equilibrar as contas da empresa. Na ocasião, a gasolina custava em média R$ 3,69.

Temer nunca foi um presidente popular, e o governo não era imune a denúncias. Ministros prestigiados, como Romero Jucá (MDB-RR) e Geddel Vieira Lima (MDB-BA), tiveram de deixar a Esplanada sob suspeita de irregularidades.

Mas com Eliseu Padilha ditando o ritmo das votações no Congresso, havia poucos sobressaltos e as reformas trabalhista e da Previdência caminhavam rumo à aprovação. Foi quando surgiu a gravação do empresário Joesley Batista, em maio do ano passado.

O áudio de Temer supostamente orientando Joesley a pagar pelo silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), preso em Curitiba, provocou cataclismo em Brasília. Num último suspiro de vigor político, o Planalto ainda conseguiu aprovar no Senado as mudanças na CLT, mas, a partir de então, o “governo de salvação nacional” passou, mesmo, a tentar salvar a própria pele.

— Desde o episódio do Joesley, da mala de dinheiro do (deputado Rodrigo) Rocha Loures, o governo parou de governar. Ali, entrou em descrédito total — afirma o historiador e cientista político Boris Fausto.
OPINIÃO

Na esteira do escândalo, Temer foi denunciado duas vezes pela Procuradoria-Geral da República e responde a outros dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal. A reforma da Previdência, considerada trunfo para agradar o mercado, foi sepultada. Uma última tentativa de conquistar apoio popular foi a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Não deu certo, frustrando a pretensão de Temer concorrer à reeleição.

Nos últimos dias, quando o governo já não tinha pauta legislativa relevante e se encaminhava para desfecho melancólico, eclodiu a greve dos caminhoneiros, insatisfeitos com sucessivos reajustes nos preços dos combustíveis – só no Rio Grande do Sul, subiram seis vezes acima da variação da inflação. Surpreendido pelos protestos, o Planalto demorou a agir.

No primeiro dia dos bloqueios nas estradas, a resposta foi novo aumento do diesel e da gasolina, que superou os R$ 5. No segundo dia, houve aceno de redução de impostos. No terceiro, pedido de trégua aos manifestantes.

Somente no quarto dia de paralisação, com as cidades à beira do desabastecimento, um acordo foi anunciado. Os caminhoneiros desprezaram o acerto e mantiveram a greve.

Na tarde desta sexta-feira, Temer fez pronunciamento para anunciar que convocaria as forças federais de segurança para desobstruir as rodovias. Mais uma vez, nada mudou. Confrontado com a resistência dos líderes dos caminhoneiros, Marun minimizava a capacidade de articulação do movimento:

— Muitas vezes, esses que se dizem líderes é gente que está no ar-condicionado, sentado numa cadeira almofadada.

Diante da ineficácia das medidas, o governo convocou nova entrevista coletiva no início da noite. Lado a lado, cinco ministros anunciaram que o presidente havia decretado Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em todo o território nacional, autorizando o emprego das Forças Armadas nas operações para permitir o transporte de cargas. A ação dos militares na repressão aos caminhoneiros contrasta com a presença de faixas e cartazes nos protestos, nas quais os próprios manifestantes e apoiadores do movimento grevista pediam intervenção militar.

— Temos um governo manchado pela corrupção e que está nas cordas justo no momento em que uma categoria girou a chave para paralisar o país. O que ainda existe de sadio na nossa política não está à altura da situação e não sabe o que fazer. Isso dá palco para quem defende a ruptura democrática. A situação é horrível, gravíssima — assusta-se Fausto.

zero hora

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